A indústria de material de construção atravessa um momento de turbulência. Os números mais recentes divulgados pela Abramat e divulgados pelo Valor Econômico mostram que, em julho de 2025, o faturamento do setor caiu 2,7% em relação ao mesmo mês do ano anterior. Apesar da retração, no comparativo imediato com junho, houve um respiro de 1,9% de crescimento, sinal de que a trajetória não é linear – e de que ainda há espaço para recuperação.
Para o acumulado do ano, a previsão é de alta de 1,5%, com destaque para os produtos de acabamento, que devem crescer 2,8%, enquanto os básicos devem avançar apenas 0,8%. À primeira vista, números tímidos. Mas em um cenário conturbado, podem ser interpretados como sinal de resiliência.
O efeito Trump na construção e o fantasma das exportações
Um dos maiores fatores de instabilidade vem de fora. Desde agosto, os Estados Unidos impuseram tarifas de 50% sobre produtos brasileiros, afetando diretamente setores como revestimentos cerâmicos. A Anfacer projeta queda de até 78% nas exportações, enquanto empresas já relatam carteiras de pedidos praticamente esvaziadas.
“Não basta produzir, é preciso ter para onde exportar”, disse um executivo em recente entrevista. O problema é que, sem diálogo efetivo entre governos, o Brasil corre o risco de “falar sozinho”, como destacou a CBIC.
No curto prazo, esse impacto obriga as empresas a buscarem novos mercados. No médio, reforça a dependência do consumo interno, que passa a ser ainda mais estratégico.
Cenário interno: juros altos e confiança baixa
Se lá fora as tarifas são o inimigo, aqui dentro o adversário atende por taxa de juros elevada. O crédito restrito e o endividamento das famílias limitam investimentos em imóveis e reformas, justamente os motores da demanda por material de construção.
Apesar disso, o setor da construção civil segue projetando crescimento de 2,3% no PIB em 2025, mantendo acima de 3 milhões de empregos formais — o maior nível desde 2014. “Há um Brasil que constrói, mesmo em meio ao pessimismo”, resumiu um analista ao jornal Valor Econômico.
Ainda assim, empresários relatam fechamento de lojas, queda no consumo e retração em regiões importantes. A instabilidade política e a falta de previsibilidade no ambiente de negócios contribuem para esse nervosismo.
Entre desafios e oportunidades
Nem tudo, no entanto, é desolador. Há ventos favoráveis que podem soprar no rumo da retomada: O programa Nova Indústria Brasil (NIB), lançado pelo governo, prevê investimentos em mobilidade urbana, infraestrutura e construção de baixo carbono. Programas habitacionais estaduais, como o Casa Paulista, em São Paulo, devem manter o mercado doméstico aquecido. A aposta em digitalização, sustentabilidade e construção modular vem ganhando força, abrindo novas possibilidades para a competitividade da indústria nacional.
Essas iniciativas, somadas ao potencial do mercado interno, podem ajudar a transformar o cenário de incertezas em um ciclo de estabilidade moderada.
Conclusão: otimismo prudente
A indústria de material de construção brasileira vive, portanto, uma encruzilhada. De um lado, tarifas internacionais, juros elevados e retração no consumo. De outro, políticas públicas, inovação e programas habitacionais que podem garantir fôlego.
Não será um ano de crescimento espetacular. Mas, se comparado a 2024, o setor pode entregar resultados melhores, mesmo que em grau moderado. Afinal, como destacam os especialistas, a construção civil é sensível ao humor econômico: se o país reencontrar um mínimo de estabilidade, os investimentos virão.
E, em um ambiente menos tumultuado, até o tijolo volta a pesar mais – não no bolso, mas no crescimento
Cassio Tucunduva
Presidente Anamaco