Empresas familiares têm grande representatividade na economia do país. De acordo com o IBGE, elas correspondem a cerca de 90% das empresas brasileiras. Por outro lado, conforme uma pesquisa da Fundação Dom Cabral (2023), apenas 30% dessas empresas chegam à segunda geração, 10% à terceira e somente 3% alcançam a quarta geração.
Olhar para esse cenário pode ser, no mínimo, preocupante. A elevada relevância econômica, aliada ao baixo índice de longevidade, pode impactar diretamente a economia.
Mas por que as empresas familiares têm uma longevidade tão baixa?
Empresas familiares não são apenas organizações econômicas, são sistemas de relações. Existe uma dimensão invisível que atravessa as gerações.
Por trás de toda empresa familiar existe uma história de superação. Se olharmos de perto, percebemos que nenhuma chegou até aqui por acaso. Toda família empresária carrega um começo apertado: o medo de não dar certo, as contas que não fechavam, as madrugadas de trabalho, as renúncias que quase ninguém viu. Mas, mesmo depois de crescerem, os desafios continuam presentes.
Apesar disso, acredito que todo fundador de uma empresa familiar sonha em deixar um legado. E é justamente nesse ponto que tudo se torna ainda mais desafiador: governança, sucessão, definição de papéis, emoções e conflitos entram em cena. A superação nunca deixa de fazer parte do caminho e, para continuar, é preciso atravessar as diferentes etapas dessa jornada.
No primeiro estágio, o desafio é sobreviver.
Após o planejamento e a abertura do negócio, a principal meta é manter-se no mercado. Dados do Sebrae indicam que cerca de 60% das empresas encerram suas atividades nos primeiros cinco anos. Neste período inicial, há forte centralização das decisões no fundador, que, muitas vezes, se identifica profundamente com a empresa. Quando tudo depende de uma única pessoa, o risco é elevado: a empresa sobrevive ou não. Surge uma questão central: como crescer sem perder a essência do fundador?
O momento da sucessão
Superada a fase inicial, a empresa se depara com um novo desafio: a sucessão. É importante lembrar que sucessão não é um evento, mas um processo que deve ser planejado com antecedência. Esse é o momento de estruturar a governança, preparar o sucessor e definir papéis com clareza e transparência.
É também nesse ponto que a dimensão invisível da empresa começa a se manifestar com mais intensidade. Quando não é devidamente considerada, ela tende a emergir em forma de conflitos — explícitos ou silenciosos. Trata-se de um momento delicado: fundadores com dificuldade de delegar, sucessores buscando espaço, comparações inevitáveis e conversas difíceis que precisam acontecer.
A grande pergunta passa a ser: como transferir o poder sem romper as relações?
É aqui que reside um dos maiores riscos. Se a dimensão invisível não for cuidada, não há estrutura de governança que se sustente. Muitas empresas não se rompem por questões de mercado, mas pela fragilidade nos relacionamentos.
Preservar as relações familiares é fundamental para a longevidade das empresas familiares. Uma família emocionalmente estruturada tem mais condições de sustentar e perpetuar o legado.
O desafio da liderança
Segundo pesquisa da Gartner (2023), 74% dos líderes de RH afirmam que os líderes de suas organizações não estão preparados para os desafios futuros. Diante disso, o desenvolvimento da liderança, especialmente em empresas familiares, torna-se um fator crítico para a sobrevivência do negócio.
Desenvolver a autoliderança, fortalecer as relações interpessoais e compreender a interdependência são elementos essenciais para a continuidade do legado.
Olhar para a dimensão invisível das empresas familiares é indispensável. Porque, nas empresas familiares: negócios são negócios, e a família faz parte.
Em que momento se encontra sua empresa?
Nunca é cedo demais para planejar a continuidade do seu legado.
Janete Moreira
Mentora de liderança e sucessão em empresas familiares
@janetemoreira.mentoria
