Setor de material de construção no Brasil enfrenta escassez de mão de obra, inflação e mudança no consumo

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O Brasil vive um momento decisivo. Quando falamos em desenvolvimento econômico, competitividade e dignidade social, há um setor que precisa ser observado com mais profundidade: o segmento do material de construção.

Sempre defendi que as três grandes necessidades do ser humano são claras e permanentes: alimentação, vestuário e moradia. E é justamente nesta última que encontramos uma das maiores engrenagens econômicas e sociais do país.

O segmento MatCon não vende apenas produtos. Ele sustenta sonhos, impulsiona cidades, gera empregos, movimenta a indústria e participa diretamente da transformação estrutural do Brasil.

Hoje, o varejo de material de construção reúne aproximadamente 158 mil lojas em todo o país. Cerca de 90% delas são pequenos negócios familiares, empresas que representam a essência do empreendedorismo brasileiro e sustentam, diretamente, mais de 850 mil trabalhadores.

Ao mesmo tempo, existe uma realidade que precisa ser encarada com objetividade: o setor vive uma de suas maiores crises silenciosas, a escassez de mão de obra. Atualmente, cerca de 81% das vagas abertas não conseguem ser preenchidas.

Esse dado revela algo maior do que uma dificuldade operacional. Ele expõe uma transformação estrutural nas relações de trabalho, no comportamento das novas gerações e na necessidade urgente de reposicionamento da gestão empresarial.

Sob a ótica econômica, o varejo MatCon movimentou aproximadamente R$ 235 bilhões em 2024. Porém, o dado mais expressivo talvez não seja o tamanho atual do mercado, e sim o seu potencial reprimido, estimado em mais de R$ 540 bilhões.

Nos últimos quatro anos, o setor perdeu cerca de R$ 14 bilhões para mercados que souberam interpretar melhor o comportamento do consumidor contemporâneo, como tecnologia, mobilidade, entretenimento digital e apostas online.

A reflexão é inevitável: o consumidor continua existindo, o dinheiro continua circulando, mas as prioridades de consumo mudaram.

Escassez de mão de obra e mudança no comportamento do consumidor

Enquanto isso, o construbusiness brasileiro, somado ao varejo, reúne aproximadamente 10,5 milhões de trabalhadores e representa perto de 10% do PIB nacional. Trata-se de uma das cadeias mais relevantes da economia brasileira, conectando indústria, distribuição, varejo, construção civil e desenvolvimento urbano.

Essa conexão se torna ainda mais evidente quando observamos que cerca de 50% do faturamento das indústrias associadas à Associação Brasileira das Indústrias de Materiais de Construção (ABRAMAT) acontece por meio do varejo representado pela Associação Nacional dos Comerciantes de Material de Construção (ANAMACO).

Indústria e varejo não competem entre si. Eles se complementam. A força de um depende diretamente da força do outro.

Mas há um ponto ainda mais sensível nessa discussão.

O Brasil possui cerca de 90 milhões de moradias. Dessas, aproximadamente 27 milhões apresentam algum tipo de inadequação estrutural. Somado a isso, milhões de brasileiros ainda vivem sem acesso adequado a banheiros.
Isso significa que o déficit habitacional brasileiro não é apenas uma pauta econômica. É, antes de tudo, uma questão de dignidade humana.

Inflação, moradia e produtividade colocam o mercado sob pressão

Outra discussão com impacto direto sobre toda a cadeia é a possível mudança da jornada de trabalho 6×1. O setor opera sob pressão de um INCC acumulado de 6,28% até abril de 2026.
Caso a mudança avance sem equilíbrio entre produtividade, eficiência operacional e sustentabilidade econômica, o impacto adicional estimado sobre os preços pode chegar próximo de 6%.

Na prática, estamos falando de uma pressão inflacionária que pode ultrapassar 12% no segmento.

A conta é simples, e preocupante.

O varejo perdeu faturamento nos últimos anos, enfrenta escassez de mão de obra, opera pressionado pela inflação e ainda pode absorver um novo aumento estrutural de custos.

Chegamos à hora da verdade

O setor de material de construção precisará decidir se continuará reagindo ao mercado ou se assumirá, definitivamente, uma posição estratégica de transformação.

Não haverá espaço para amadorismo na gestão.
Não haverá espaço para decisões sem indicadores.
Não haverá espaço para crescimento sem produtividade.

O futuro do segmento dependerá da capacidade de compreender, com profundamente, três pilares: gestão, pessoas e eficiência.

Porque, no fim, o verdadeiro diferencial competitivo não estará apenas nos produtos vendidos, mas na inteligência com que as empresas conduzirão seus negócios diante das mudanças que já começaram.

Por Joaquim Ramalho – Professor e Consultor
Presidente Executivo da ACOMAC São Paulo.
Fundador da Universidade ANAMACO.

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