O primeiro semestre de 2026 mostrou sinais importantes de resistência no varejo de material de construção, mesmo diante de um ambiente econômico desafiador, marcado por oscilações, diferenças de desempenho entre as empresas e perda de intensidade ao longo do segundo trimestre.
A consolidação dos seis levantamentos do Termômetro Anamaco divulgada nesta semana indica que, em todos os meses do semestre, o percentual de lojistas que perceberam crescimento nas vendas foi superior ao daqueles que relataram queda.
Na média do período, 40,3% dos entrevistados apontaram aumento nas vendas em relação ao mês anterior, 41,3% indicaram estabilidade e 18% registraram retração.
Os resultados demonstram que a maior parte dos empresários conseguiu avançar ou, pelo menos, preservar seu nível de atividade. Isso é significativo, especialmente considerando os desafios enfrentados pelo varejo de material de construção, como juros elevados, restrições ao crédito e o comprometimento da renda das famílias.
É fundamental, no entanto, interpretar corretamente os números. O Termômetro Anamaco mede a percepção dos lojistas sobre o desempenho de suas vendas em comparação com o mês imediatamente anterior. Os percentuais não representam uma taxa de crescimento do faturamento de todo o setor.
Por isso, não há contradição entre os resultados do levantamento da Anamaco e outros indicadores econômicos que apontam redução de volume ou dificuldades enfrentadas pelo varejo. São diferentes formas de observar o mercado, com metodologias e períodos de comparação distintos.
Desempenho varia conforme o porte das lojas
A análise por porte revela que o desempenho do varejo de material de construção não ocorreu de forma homogênea entre as empresas.
Na média do semestre, 56,7% das empresas com 50 ou mais funcionários relataram aumento nas vendas. Entre as lojas com até quatro funcionários, esse percentual foi de 27,7%.
Essa diferença merece atenção. As grandes empresas geralmente possuem maior capacidade financeira, melhores condições de negociação, estruturas de gestão mais desenvolvidas, presença digital e acesso mais amplo a fornecedores e linhas de crédito.
Já o pequeno lojista, que representa uma parcela essencial da capilaridade do setor de material de construção brasileiro, enfrenta mais dificuldade para absorver custos, manter estoques, investir em tecnologia e atravessar períodos de menor movimento.
Não podemos analisar o desempenho do setor apenas pela média. É preciso considerar a realidade de cada porte de empresa e, principalmente, construir condições para que os pequenos e os médios varejistas também possam crescer.
As reformas continuam acontecendo, mas em etapas
Nesta semana, tive a oportunidade de conversar com o jornal O Estado de S. Paulo sobre o momento vivido pelo setor e sobre o desempenho do Programa Reforma Casa Brasil.
Durante a entrevista, destaquei uma realidade que os lojistas conhecem bem: as famílias continuam reformando, mas muitas vezes fazem isso em etapas.
Em um primeiro momento, compram o revestimento. Depois de recuperarem parte do orçamento familiar, retomam a obra para realizar a pintura, trocar as instalações elétricas ou concluir outro ambiente. A reforma não deixou de existir, mas passou a acompanhar mais de perto a disponibilidade financeira do consumidor.
Esse comportamento ajuda a explicar as oscilações observadas ao longo do semestre. Existe demanda, mas ela está mais fragmentada, sensível ao crédito e diretamente ligada à confiança das famílias.
O Reforma Casa Brasil foi criado com potencial para estimular o mercado, melhorar as condições das moradias e movimentar uma extensa cadeia produtiva. Entretanto, os números apresentados até o momento mostram que o programa ainda está distante da escala inicialmente esperada.
Além da baixa utilização dos recursos disponíveis, preocupa-nos a ausência de mecanismos mais efetivos para garantir que o crédito seja realmente destinado à aquisição de produtos e serviços relacionados à reforma.
A exigência da nota fiscal na compra do material de construção contribuiria para assegurar a finalidade do recurso, estimular a formalização, proteger o consumidor e fazer com que o investimento chegue efetivamente ao comércio, à indústria e aos profissionais envolvidos nas obras.
O programa não deve ser abandonado. Deve ser aperfeiçoado, ampliado e acompanhado com maior atenção, para cumprir seu papel econômico e social.
Perspectivas para o segundo semestre
Tradicionalmente, o segundo semestre concentra oportunidades importantes para o varejo de material de construção. A retomada de reformas, a preparação dos imóveis para o fim do ano e determinadas condições climáticas costumam favorecer diversas categorias de produtos.
Isso nos permite manter uma perspectiva construtiva para os próximos meses, mas sem ignorar os fatores que podem limitar o crescimento.
O custo do crédito, o nível dos juros, o endividamento das famílias e a confiança do consumidor continuarão sendo determinantes.
Também teremos um período eleitoral, que normalmente aumenta a cautela nas decisões de investimento e pode trazer volatilidade para as expectativas econômicas.
Outro tema que exige acompanhamento é o debate sobre mudanças na jornada de trabalho, especialmente em relação ao modelo 6×1. Qualquer alteração precisa considerar as particularidades do comércio, os diferentes portes de empresas e os impactos sobre custos, horários de atendimento, geração de empregos e sustentabilidade dos negócios.
O varejo de material de construção reconhece a importância de avanços nas relações de trabalho, mas defende que as decisões sejam construídas com diálogo, previsibilidade e responsabilidade econômica.
Transformar resistência em crescimento
O primeiro semestre de 2026 mostrou que o setor permanece ativo e resiliente. A maioria dos lojistas conseguiu manter ou ampliar suas vendas em diferentes momentos, mesmo diante de um cenário adverso.
Mas a resistência não deve ser confundida com crescimento consolidado.
Para que o segundo semestre seja efetivamente positivo, serão necessárias melhores condições de crédito, programas públicos mais eficientes, segurança jurídica, estímulo ao consumo responsável e medidas que considerem a realidade de quem empreende e gera empregos.
A Anamaco continuará acompanhando os indicadores, ouvindo os lojistas e representando os interesses do varejo de material de construção junto ao poder público e às demais instituições.
Temos um mercado formado por milhares de empresas que participam diretamente da realização dos projetos das famílias brasileiras. Fortalecer essas lojas significa estimular a economia local, preservar empregos e contribuir para que mais pessoas tenham acesso a uma moradia segura, adequada e de qualidade.
Cássio Tucunduva
Presidente da Anamaco
