Por Cassio Tucunduva, presidente da Anamaco
Nesta semana, tive a oportunidade de participar, ao lado do nosso CEO Julio Pereira, do DIY Summit 2026, em Amsterdã, um dos mais importantes encontros mundiais do varejo de material de construção e home improvement. Ao longo da programação, acompanhamos apresentações de executivos, especialistas e lideranças empresariais que estão ajudando a definir os rumos do varejo global.
Além de observar tendências internacionais, buscamos entender quais transformações já estão impactando o comportamento dos consumidores e quais lições podem contribuir para o fortalecimento do varejo brasileiro de material de construção. Entre os diversos temas discutidos, trago neste artigo algumas reflexões que nos chamaram a atenção.
Tecnologia, dados e velocidade
Em sua apresentação “What Temu Will Do Next”, o especialista em varejo digital Ed Sander mostrou que o crescimento de plataformas como Temu, Shein e TikTok Shop vai muito além da disputa por preços baixos.
Na avaliação dele, o diferencial dessas empresas está na combinação entre tecnologia, inteligência de dados, eficiência logística e capacidade de adaptação. São organizações que conseguem identificar mudanças no comportamento do consumidor e responder rapidamente às novas demandas do mercado.
A principal lição para os lojistas brasileiros não é competir diretamente com essas plataformas. O verdadeiro aprendizado está na importância de compreender melhor o cliente, utilizar informações para apoiar decisões e aumentar a agilidade dos negócios.
O varejo de material de construção possui um diferencial que continua extremamente relevante: o relacionamento próximo com o consumidor. Atendimento especializado, orientação técnica, conhecimento da realidade local e confiança são atributos que dificilmente podem ser substituídos por um marketplace.
Na verdade, o desafio está em combinar essas fortalezas com as ferramentas que a transformação digital oferece.
Proteger dados também é proteger o negócio
Outro tema que ganhou destaque no evento foi a segurança digital.
Durante a palestra “Cybersecurity Resilience in Retail”, Chris Blatchford, CTO do Kingfisher Group — controlador de redes como B&Q, Castorama e Brico Dépôt — chamou atenção para um problema que afeta empresas de todos os portes: o aumento dos riscos cibernéticos em um varejo cada vez mais conectado.
A digitalização trouxe ganhos importantes de produtividade, integração e relacionamento com clientes. Ao mesmo tempo, ampliou a exposição a fraudes, vazamentos de dados e interrupções operacionais.
Um dos pontos destacados na apresentação foi a constatação de que o maior risco continua sendo o fator humano. Muitos ataques começam por e-mails falsos, engenharia social ou pequenas falhas de procedimento.
O que isso significa para os lojistas?
- Treinar constantemente as equipes para identificar golpes e fraudes.
- Proteger sistemas de gestão, bancos de dados e informações de clientes.
- Utilizar senhas fortes e autenticação em duas etapas.
- Manter backups atualizados e protegidos.
- Escolher fornecedores de tecnologia que priorizem segurança digital.
Segurança digital não é apenas uma responsabilidade da área de tecnologia. Ela precisa fazer parte da cultura da empresa.
Da mesma forma que protegemos estoques, equipamentos e patrimônio físico, precisamos proteger informações, sistemas e dados dos clientes.
Sustentabilidade como motor de inovação
Tivemos um dia do DIY Summit dedicado às discussões sobre sustentabilidade e ao papel que varejo, indústria e governos precisam desempenhar para construir cadeias de suprimento mais resilientes e preparadas para o futuro.
Entre as diversas apresentações, uma das mensagens mais marcantes veio de Steffen Erath, diretor global de sustentabilidade da Hansgrohe. Para ele, sustentabilidade não deve ser vista como custo, mas como motor de inovação.
A mesma visão apareceu em debates conduzidos por representantes da ADEO, da 3M e de outras organizações internacionais. A conclusão comum foi que empresas mais sustentáveis tendem a ser também mais eficientes, inovadoras e competitivas.
Consumidores estão cada vez mais atentos à origem dos produtos, à eficiência energética e ao impacto ambiental de suas escolhas. Esse movimento deve ganhar força nos próximos anos.
Para o Brasil, existe uma oportunidade importante. Nossa matriz energética, a participação de fontes renováveis e os avanços que a indústria nacional vem realizando em eficiência e certificações ambientais criam condições favoráveis para que o setor amplie sua competitividade.
O futuro será construído pela capacidade de adaptação
Nestes dias de aprendizado e troca de experiências, uma conclusão ficou evidente. Embora os temas discutidos fossem diferentes, todos apontavam para a mesma direção: o varejo está mudando mais rápido do que nunca.
Novas tecnologias, novas exigências dos consumidores, novos desafios operacionais e novas responsabilidades empresariais fazem parte de um cenário que continuará evoluindo nos próximos anos.
Mas existe uma mensagem positiva para o setor de material de construção.
As empresas que continuarão relevantes não serão necessariamente aquelas que possuem mais recursos, mas aquelas capazes de compreender as mudanças e se adaptar a elas sem perder sua essência.
Relacionamento, confiança, conhecimento técnico e proximidade com o cliente continuam sendo diferenciais poderosos. A tecnologia, a sustentabilidade e a segurança digital não substituem esses atributos. Elas os fortalecem.
O DIY Summit trouxe uma visão clara sobre os caminhos que estão sendo construídos ao redor do mundo. As transformações já estão em curso e chegarão, em maior ou menor intensidade, a todos os mercados.
O varejo brasileiro de material de construção possui uma base sólida, construída sobre relacionamento, confiança e conhecimento técnico.
Se soubermos combinar esses diferenciais com inovação, agilidade e capacidade de adaptação, estaremos preparados não apenas para acompanhar as mudanças do setor, mas para transformar desafios em oportunidades de crescimento.
