
Conhecer como funcionam as lojas de material de construção em outros mercados é uma oportunidade para observar diferentes modelos de operação e refletir sobre os desafios enfrentados pelo varejo brasileiro.
Foi com esse objetivo que realizamos uma entrevista com uma empresa de porte médio em Chicago, Illinois, uma das principais metrópoles americanas e importante centro financeiro e empresarial dos Estados Unidos.
A escolhida foi a Consumers Supply Company, uma tradicional loja de bairro de Chicago que trabalha com linhas hidráulicas, elétricas, ferramentas, ferragens, louças, metais e acabamentos em geral. A empresa foi selecionada entre negócios de pequeno e médio porte que retratassem condições e desafios semelhantes aos enfrentados pela maioria das empresas associadas ao Sistema Anamaco.
Durante a seleção, deliberadamente deixamos de lado o modelo “Home Center”, por entendermos que esse formato atende a uma parcela menor dos associados brasileiros. Nosso objetivo era conhecer mais de perto a realidade do pequeno e médio varejo de Matcon americano.
Na conversa, Mark, representante da empresa, compartilhou informações significativas sobre o modelo de negócio e sua forma de operação, permitindo conhecer aspectos do varejo de material de construção nos Estados Unidos e estabelecer comparações com a realidade brasileira.
Salário fixo e uma equipe de longa permanência

A Consumers Supply Company funciona das 8h às 16h, sem fechamento ao meio-dia, e aos sábados das 8h às 12h. A empresa possui uma única loja e não trabalha com marca própria.
Outro aspecto que chamou nossa atenção foi a longevidade dos colaboradores. A maioria dos funcionários trabalha na empresa há mais de 10 anos, demonstrando um turnover muito baixo ou praticamente inexistente.
Os colaboradores recebem salário fixo e não trabalham com sistema de comissionamento sobre as vendas. Segundo as informações obtidas na entrevista, também não recebem participação nos lucros ou PLR.
Atendimento como prioridade e presença digital diferente da brasileira

Um dos principais valores percebidos durante a entrevista foi a preocupação com o atendimento. A empresa procura não deixar nenhum cliente sem atendimento porque entende que o cliente é a razão da existência do negócio. Esse conceito, embora simples, demonstra uma forte cultura de proximidade com o consumidor.
A empresa também realiza vendas pela internet, porém não utiliza aplicativos de comunicação e vendas como o WhatsApp. A realidade é diferente da observada no Brasil, onde a ferramenta é amplamente utilizada pelo varejo de materiais de construção.
Em relação à origem dos produtos, a empresa informou que não trabalha nem compra produtos diretamente da China, priorizando produtos americanos e europeus, com foco em qualidade.
Impostos e indicadores de gestão da loja

Segundo as informações obtidas durante a entrevista, as taxas e impostos incidentes sobre a operação seriam inferiores a 10% do faturamento. Esse dado, naturalmente, deve ser analisado considerando as características específicas da empresa, do município e do Estado, não podendo ser generalizado para todo o varejo americano.
Também fizemos questionamentos relacionados aos indicadores de desempenho, gestão e resultados da empresa. Entretanto, esse assunto deveria ser tratado diretamente com o proprietário, que não se encontrava no momento da entrevista.
Nossa percepção é de que a empresa possui seus próprios indicadores e controles, construídos principalmente a partir de 30 anos de experiência, conhecimento do mercado e rotinas de gestão desenvolvidas ao longo de sua história.
O que o Matcon americano pode ensinar ao varejo brasileiro?

Pessoalmente, foi um grande desafio realizar essa entrevista. Tivemos que conciliar tempo, deslocamento, localização e muita caminhada, além de toda a logística necessária para encontrar uma empresa que realmente representasse o perfil que buscávamos. Mas, sem dúvida, valeu muito a pena.
A troca de informações nos permitiu conhecer, na prática, um pouco mais sobre como funciona o Matcon nos Estados Unidos e, principalmente, refletir sobre aquilo que podemos aprender e adaptar à realidade brasileira.
Certamente existem empresas americanas com modelos, estratégias e rotinas diferentes. Porém, segundo nosso entrevistado, Mark, esse perfil de empresa de pequeno e médio porte, com forte relacionamento com o cliente, baixa rotatividade de funcionários e operação mais enxuta, representa uma parcela importante do mercado americano.
Um ambiente melhor para empreender

A leitura que faço dessa experiência é que, se tivéssemos no Brasil um ambiente econômico mais favorável, com menor carga tributária, menos burocracia e um Estado menos oneroso para as empresas, considerando toda a capacidade, criatividade e espírito empreendedor do empresário brasileiro, poderíamos ter empresas de Matcon ainda maiores, mais eficientes e competitivas.
O empresário brasileiro enfrenta diariamente inúmeros desafios e, mesmo assim, continua empreendendo, gerando empregos e movimentando a economia. Talvez nossa maior oportunidade esteja justamente em criar condições para que esse empreendedor possa produzir, investir, crescer e competir.
Essa experiência nos Estados Unidos reforça uma convicção:
O empresário brasileiro não precisa de menos vontade de empreender. Precisa de um ambiente melhor para empreender.
Bons negócios a todos!
Jaime Silvano
Diretor da Anamaco e Acomac POA
