Quem vai pagar a conta da nova jornada de trabalho no Brasil?

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Por Cassio Tucunduva, presidente da Anamaco

A aprovação, pela Câmara dos Deputados, da proposta que prevê o fim da escala 6×1 e a redução da jornada semanal de trabalho traz uma série de apreensões para empresários de diferentes setores.

Esse é um tema importante. O trabalhador brasileiro merece respeito, dignidade, tempo de descanso e condições adequadas para exercer sua função. Mas, uma vez em vigor, a mudança coloca em xeque a capacidade real das empresas de sustentar esse novo modelo sem comprometer empregos.

No varejo de material de construção, essa preocupação é ainda mais sensível. Nosso setor é formado por mais de 160 mil lojas em todo o país, muitas delas pequenos e médios negócios, empresas familiares e operações regionais que dependem diretamente da mão de obra presencial. São lojas que abrem cedo, atendem no sábado, entregam materiais, organizam estoque, orientam o consumidor, negociam com pedreiros, arquitetos, construtores e famílias que estão reformando suas casas.

Reduzir jornada sem reduzir salário pode exigir novas contratações para manter a operação funcionando. Para algumas empresas, isso pode ser possível. Para muitas outras, especialmente em um cenário de juros altos, crédito caro, margens apertadas e consumo pressionado, essa conta simplesmente não fecha.

E essa preocupação não é teórica. O mercado de material de construção já vem dando sinais claros de ajuste. Redes tradicionais têm reduzido presença física, fechado unidades e revisto seus modelos de operação. A Telhanorte, por exemplo, foi vendida pela Saint-Gobain em um movimento de saída do grupo francês do segmento de distribuição no Brasil. A C&C passou por reestruturação e fechamento de lojas. A Cassol encerrou unidades em diferentes cidades da região Sul. Na indústria, a Dexco anunciou o encerramento das atividades produtivas da unidade de revestimentos cerâmicos em Urussanga, concentrando a produção em outras plantas.

Esses casos mostram que o setor vive um momento de reorganização. Não se trata de falta de importância do varejo de material de construção. Ao contrário: trata-se de um setor essencial, presente na vida das famílias brasileiras, responsável por abastecer obras, reformas, manutenções e melhorias habitacionais em todos os municípios do país. Mas também é um setor que opera sob pressão.

Segundo estudo da Anamaco, o Brasil conta com 160.627 lojas varejistas de material de construção em 2025, número 1,04% superior ao registrado em 2024. O levantamento também aponta faturamento de R$ 238,9 bilhões em 2025, com crescimento nominal de 2,4% em relação ao ano anterior. O varejo de material de construção representa aproximadamente 1,88% do PIB nacional, enquanto a cadeia da construção corresponde a cerca de 6,6% do PIB brasileiro.

Esses números revelam a força do setor. Mas também reforçam a responsabilidade de qualquer decisão que afete diretamente sua operação. Quando falamos em jornada de trabalho, não falamos apenas de escala. Falamos de custo, produtividade, atendimento, competitividade, formalização e manutenção de empregos.

O risco é que uma medida criada para ampliar o descanso do trabalhador acabe, na prática, levando parte das empresas a reduzir equipes, encurtar horários de funcionamento, adiar contratações ou até fechar unidades. Em vez de mais folga, podemos ter menos postos de trabalho. Em vez de ganho social, podemos produzir insegurança para empresas e trabalhadores.

O Brasil precisa avançar em qualidade de vida, mas não pode fazer isso ignorando a sustentabilidade econômica de quem emprega. O comércio de material de construção quer continuar gerando renda, oportunidades e desenvolvimento. Quer continuar abastecendo a casa dos brasileiros e contribuindo para a melhoria das moradias. Quer continuar fazendo parte da solução.

A verdadeira responsabilidade social está em encontrar um caminho que preserve direitos, fortaleça empresas e proteja empregos. Porque, no fim, a melhor política para o trabalhador é aquela que melhora sua vida sem ameaçar o seu trabalho.

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